Final de tarde de Domingo


       É um final de tarde de Domingo que cai inteiro naquela sala enchendo-a de melancolia e tédio. Sim.... Como todos os finais de tarde de Domingo.
Ele e ela ali estavam, lado a lado, ainda que cosidos ao sofá a preguiça ia fazendo-os escorregar lentamente para fora dele. Era essa a única razão para não adormecerem.
Viam um filme, daqueles que dão aos finais de tarde de Domingo, com um homem grande a mostrar quem manda, repleto de tiros que só acertam nos maus e cheio de explosões em câmara lenta nas costas do tal grandão. Mas este homem não está sozinho, tem que proteger a mulher mais impactante que encontrou naquela cidade perigosa, coitado... Ainda por cima... Há dias assim... Mas aquela deusa de carne também não tem muita sorte, logo naquele dia tão complicado e turbulento tinha que ter vestido aquele vestido curto vermelho e o vento empenhado em enervá-lo...
E lá andavam os dois nas correrias dos justiceiros, ele todo sujo e suado, ela graciosa nos seus saltos altos que nem para fazer amor se devem tirar.
Era nisto em que ele e ela assentavam os olhos naquele final de tarde de Domingo, lado a lado. Até que ele de súbito e inesperadamente olha-a e diz:
-  Eu amo-te, amo-te toda, eu a ti só te quero dar tudo.  Amo-te até que alguém nos tire deste mundo e, na verdade, quando tirarem havemos de continuar noutro lugar e ainda com mais força, como se eu acreditasse ter mais força ou mais amor para te dar. É isso... Eu amo-te...
Ela olhou ele, os olhos dela ficaram brilhantes ao ver o brilho dos dele, ela humedeceu os lábios quando viu o vermelho dos dele, ela avançou para ele paulatinamente para que lesta se afastasse de imediato e dissesse de novo com os olhos cravados na televisão:
- Não fazes mais nada do que a tua obrigação.

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